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Última atividade: 29 Nov

Ana cita o amor

Nessa manhã, frente aos cactos, no pátio da faculdade, aqui no Sertão Central, saio para fumar um cigarro (o café gostoso me atiçou a vontade do veneno). Ana, a copeira, está sentanda e me reclama - ai, professora, estou com uma dor. Dor de que? Pergunto eu. Ela, com o rosto em contração responde em meio a um sorriso intervalo - dor de mulher! Entao, eu na fala da brincadeira, para melhor entender esse fala e jogar com "a dor" pergunto: e tem dor de homem? Ela rir e me devolve a pergunta: eu não sei, existe tal dor? Eu então, traçando a piada, nessa manhã ensolarada digo em meio a uma sacana risada: tem, a dor de chifre! Um chifre enovelando, quando encontra uma cerca de arame farpado! Ela rir para mim, e, num ensaio poético lança uma fala - pior é a maior dor da mulher - a dor da saudade...Eu trago o cigarro, olho para a dor da Ana, com olhar mareado e me calo...

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Roseane Comentário de Roseane em 29 novembro 2009 às 22:45
Previsões quase certeiras (EC)


Antevi tanta coisa, sem bola de cristal. Previ o que era óbvio, depois eu soube disso. Intuía o que de nós se aproximava. Sentia por nós. Pressagiava o encaminhar dos fatos. A tua, a minha ausência de ti. Prenúncio de intenso vazio. Lacunas.
Previra intimamente que acaso a partida era eu quem poria os pés fora daquela ilusão, daquele engano, daquele rio de promessas que se perdia num oceano silente, dentro de cada um de nós.
Em mim tinha uma inarredável ebulição, um turbilhão de sonhos, vontades postas na gaveta do criado-mudo, que lá emudeciam, mas tinham seu choro vazado por entre as frestas das madeiras da mobília, sentia escorrer, verter as suas dores.
O tempo se fez carrasco de uma decisão, horas vazias de sentido, relógios sem ponteiros, que fincam, ferem e avisam a cada obsoleto minuto. Somente um alento embotava ou cobria com fino véu toda aquela agonia quando tu, disposto ao breve romper das tuas próprias clausuras te permitias à entrega do corpo que se debate em irrefreável desejo. Naquela hora então pareciam inverossímeis todas as penitências, castigos que impúnhamos a nós dois e aos nossos sentimentos. Uma trégua que se dava sempre entre dias mornos e tardes acaloradas de um domingo qualquer.
Pressupus a proximidade da quebra, do desacorrentar rumo a tantas perspectivas, abismos intransponíveis eram poucos diante do quanto já éramos estranhos a nós mesmos. Eu, estranha de mim, enigmática para ti. Tu estranho absolutamente alheio a ti e a mim. Já não nos reconhecíamos enquanto essências, e tudo que imaginávamos saber um do outro, todas as afinidades supostas, toda a intentada experiência, os laços fortes que nos uniam , eram agora monstros que dormiam em nossas camas, eram nossas próprias sombras, que horas se desencaixavam, desprendiam da imagem que tínhamos construído um do outro e de nós mesmos.
Quebraram-se os nossos castiçais, esfacelaram-se as taças de cristais, os antigos achados de amor, o velho tratado de respeito, foi-se, esvaiu-se meio ao insólito desconhecer e ignorar que habitou, povoou o universo de nós dois.
Previ, que partiria, cataria a pouca dignidade que restava e me iria de ti.
Tudo por mim vaticinado. Tracei uma partida.
Uma ida sem volta e sem recados. Um desaparecer sem endereços, telefones mudos. Coração que pede, roga liberdade.
Amanheceria, madrugada, seria um único abrir e fechar de porta. O último.
A redenção.
Prognóstico errado.
Na madrugada um ruidoso estampido fere de morte o silêncio. Acorda a surdez interior.
Como te antecipaste ao meu intento de fuga? Sempre senti que entre nós haviam apostas veladas.
Surpreendes-me, a maior de todas as surpresas. Saíste na frente e com folga.
Uma fuga sem precedentes e realmente sem volta.
Tu te foste antes de mim.
E quase igual o planejado. Sem deixar qualquer bilhete. Em sepulcral silêncio.

Confesso aturdida, por essa eu juro, não esperava...

*****

Este texto faz parte do Exercício Criativo - Por Esta Eu Não Esperava.
Saiba mais, conheça os outros textos: http://encantodasletras.50webs.com/naoesperava.htm
Roseane Comentário de Roseane em 20 novembro 2009 às 22:43
A mala e a espera (EC)





Ainda recorda o estampir da porta batendo, meio que socada, um susto breve, um ruído a azucrinar cada dia. Era a saída de Marçal, prometida de volta, sim, de volta.Depois que as Águas de abril baixassem e a lavoura pudesse ser retomada, o replantar da mandioca. Depois que se fossem as chuvas e a época do Açaí bom chegasse, atravessaria muitas sacas para a feira, ai ele voltaria.

Ah, voltaria sim, quando aquela leva de Malária se abrandasse, a febre e tremor se fosse, e chegasse à hora de pegar mais remédios lá na cidade, ai ele voltaria. O tempo dos Carapanãs é cíclico, o homem da Sucam viria de barco colocar DDT, depois, então ele voltaria.

Chegaria o tempo de chegar, o afastamento seria de volta também, ou então de temporada, de tempo como é o tempo das mangas, que caem sem trégua nos carros estacionados ou mesmo em movimento nas ruas de Belém, ou como o tempo das chuvas que andam mudando de hora. Seria assim, o tempo do regresso, como o tempo das águas enormes que alagam a Belém Antiga, transbordam o Ver- o- Peso, um tempo de muitas e revoltas águas.

O Marçal HAVERA de voltar, junto como os romeiros, para o Círio de Nazaré, trazendo patos, e outras iguarias para o almoço tradicional de domingo, e juntos acompanhariam a Santa na corda, agradecendo as boas safras, o reencontro. Agradecidos. Juntos. Como sempre fora.

Do Natal não passaria, de jeito nenhum. As crianças esperavam ansiosas pelos brinquedos comprados na Importadora, e gostavam de ver o Papai Noel chegar de helicóptero no Mangueirão, ou de barco mesmo, tanto fazia, o Noel vindo e ele voltando era o que bastava. Bastaria.

Ah, ela tinha sim esperanças, afinal era devota de Nossa Senhora de Fátima e ela nunca a abandonava, nunca, até quando o menorzinho teve aquela suspeita de Doença de Chagas, naquele tempo que o Açaí “disque tava” contaminado e também quando a do meio teve Leishmaniose e tudo foi curado pela virgem. Graças, por isso ela não perderia as esperanças. Não mesmo. Mulher de fé era assim.

O parto do terceiro, lá na floresta, foi difícil e então se pegou com a Santa e a parteira, que chegou no lombo do cavalo, inda teve tempo de puchar a barriga e pegar a criança que tava emborcada. Sem contar a mais esmirradinha a segunda menina, ah essa nasceu no barco e foi Marçal quem pegou. Tudo com a graça de Deus. Que nunca falta, e não faltaria. Seria mesmo num janeiro, ou outubro, isso era apenas a marca do tempo na velha folhinha pregada na parede. Se mudasse de ano, teria uma nova, vinda lá da loja bacana da cidade. O tempo não deixaria de ser marcado, dia após dia com lápis das criança ou com uma fagulha de carvão do velho fogão de pedra. Não importava. O bom mesmo era no fim da noite, depois da novela assistida graças à parabólica que Marçal orgulhoso comprou, e depois que a molecada toda já estava nas suas redes, se aquietando, Maria de Fátima ia lá para a beira da varandinha de madeira que dava de frente para o rio, atava a sua redinha com mosquiteiro e ficava lá matutando... e o pensamento não desgrudava da feição de Marçal, da pele morena rachada de sol, dos braços fortes traçados pela dureza da vida, da mão áspera pelos seus longos cabelos negros e que ao pegar lhe a costa a fazia flutuar... tudo seria possível sim, quando ele chegasse.

Em muito, muito o calendário antigo amarelou, outro veio, e mais um, mais outro. E mais um dia, e menos um esperar. E mais um danar de faltar. E mais escondido das crianças chorar. O tempo, o senhor das horas se fez presente, e não se fez de rogado. Relutante, Maria arrumou uma pequena mala a qual nem sabia para que, atinou de reunir os pertences de Marçal, assim achava que retirando da casa aquelas visões, retiraria um pouco o que no peito a dilacerava. Cada pertence juntado mereceu uma lágrima, era como um lacre imposto pela solidão da falta. Da falta de tudo, do seu moreno, do cheiro do cigarro de palha a boca da noite. Da falta de uma simples e qualquer explicação.

A mala ali estava pronta. Num canto junto às saudades...

Mas a mais significativa, que ficara pronta o tempo todo e lá se iam muitas folhinhas riscadas, era a mala dos sonhos, na qual depositara todas as expectativas, esperanças e fé de que ele voltaria sim. Ele voltaria.

Haveria de voltar.

Voltaria.











Elucidário:



Malária - Doença infecciosa, endêmica em várias regiões, muito comum no Norte do país.



Carapanã - Denominação de mosquito/pernilongo na região Norte.



DDT - Pesticida usado no combate a Malária.



SUCAM - A Sucam foi incorporada em 1990 à Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Era chamada de “o Exército de mata mosquitos”.





Belém Antiga - Bairro chamado Cidade Velha, onde estão as antigas construções da riquíssima época da borracha, e belos prédios com a assinatura de Antônio José Landi, arquiteto italiano com marcante atuação na Amazônia.







Romeiros - Como chamam as pessoas que chegam dos interiores de todo o Pará para “Passar o Círio”.





Corda - Corda do Círio, tradição antiga onde se acumulam pessoas num esforço sobre humano sempre na intenção de pagar uma promessa. Um dos ícones do Círio de Nazaré.





Mangueirão - O Estádio de Futebol mais famoso de Belém, hoje um Complexo Poli-esportivo, com pista Olímpica Oficial para Atletismo, rebatizado como Estádio Olímpico do Pará.



Disque - Expressão popular que significa algo como “dizem por ai”. Nada que se afirme.









Puxar a barriga - Uma tradição entre as parteiras, que intenciona “colocar o bebê na posição ideal para o parto”.







Rede - A rede de descanso (ou rede de dormir) é um utensílio doméstico de origem indígena, que originalmente era feita com cipó e lianas. Chamadas de hamaka. Consiste numa espécie de tecido com alças. Durante o Brasil colônia era muito utilizada para dormir, enterrar os mortos no meio rural e como meio de transporte, onde os escravos carregavam os colonos em passeios pela cidade e até em viagens.





Mosquiteiro – Cortinado de fino tecido usado para proteger dos mosquitos, complemento da rede.





Havera – usada apenas verbalmente, sem registro oficial, significa uma afirmação popular cujo sentido é a certeza. Pode em alguns textos ser substituindo por “Existir ou haver”.











Este texto faz parte do Exercício Criativo - De Malas Prontas.
Saiba mais, conheça os outros textos: http://encantodasletras.50webs.com/malas.htm
Roseane Comentário de Roseane em 31 outubro 2009 às 20:36
Briga restauradora (EC)


Olhara-se indagativa...
Mirava-se,
Frente e costa, lado direito, esquerdo...
Inquiria a si mesmo...
Já nem sabia quem era,
Não mais,
Perdera o fio do compreender,
Achava-se estranha,
O tempo não lhe concedera o reconhecimento.
Num profundo desanimar sentou-se ao chão, deixou que a súbita vontade de chorar se fizesse livre...
Esqueceu-se do tempo ali. Mas nunca mais ousaria de si desprezar. Aquele espelho no corredor principal do segundo piso esteve lá o tempo todo, como nunca se dera conta daquilo?
Ninguém passaria naquele lugar àquela hora, precisava de um período a só consigo mesma para desencarnar a mulher ultrajada e destituída de auto-estima, que ao dedicar-se inteiramente a família, marido, esquecera da própria existência. Era mister, num choque de lucidez, de realidade, atirar escadas a baixo a ansiedade, a tristeza pela súbita descoberta, o ressentimento pela saída (dita precipitada) do marido de casa, alvejar certeiramente o abandono que sentia açoitar o menosprezo que julgava atrair, as mágoas inexoráveis. Tinha que soterrar naquela maldita (ou seria bendita) hora o ser repugnante que vira naquele espelho. Era aquilo ou então o próprio fim. Melhor escandalizar-se naquela fustigada hora, ou ruminar para sempre os brios quase aniquilados.
Fitou-se novamente, agora menos perplexa... com a blusa rota e manchada de gordura retirou do rosto o misto de lágrimas e suor. Respirou profundamente. Pausou. Num lampejo, relance olhou para trás e viu passar o filme de um casamento que durara dezoito anos e pensou que haveria de aprender a viver sem. Ou melhor, reaprenderia a viver, sem as humilhantes cenas que se obrigara a passar, desde que engordara quarenta quilos e fora trocada por uma ou tantas outras. Deu-se um basta. Um último sondar no espelho. Desceu com dificuldades as escadas, os joelhos com os meniscos estourados pelo sobrepeso quase não a permitiam andar... Dificultosamente apanhou a velha agenda na estante, foi ao telefone...
- É do consultório do Dr. André?
- sim, quero agendar uma consulta...

Sucederam outras diversas ligações...

...E foi assim que a briga começou...


*****
Este texto faz parte do Exercício Criativo - E Foi Assim Que a Briga Começou.
Saiba mais, conheça os outros textos: http://encantodasletras.50webs.com/briga.htm
Carlos Eduardo Martins Comentário de Carlos Eduardo Martins em 21 agosto 2009 às 20:50
Cyberkultura
ou
Virtual realidade/Real virtualidade

Em um distante reino perdido na mente, vivia um vassalo de si mesmo. Tinha aproximadamente 60 anos e se achava jovem, via graça nisto, pois quando era jovem pensava que as pessoas com aproximadamente 60 anos eram velhas. Questionava: Será que hoje envelhecemos mais devagar? Como isto é possível se as crianças ficam espertas logo após o nascimento? Ficava intrigado com estes fatos, mas seguia adiante com sua vida solitária. Trazia o universo dentro de si e estava antenado com os avanços da cibernética. Por força das circunstancias, depois de viver anos, isolado em uma ilha, foi obrigado a tomar conhecimento e fazer uso do computador, que a principio via como um monstro. Após ler uma poesia que tratava do assunto mudou de opinião, sua posição era contrária a da poesia, já que ele era um artista e na poesia era um jovem que escreve para Cora Coralina falando do quanto queria ser artista, mas trabalhava com esta maquina fria, ao que ela responde que no futuro nós veríamos a alma dos computadores, o que eles trazem de bom para a humanidade.
Um dia... Estava ele terminando, solitário, seu almoço em um restaurante quando se aproximou um rapaz, cumprimentou-o demonstrando conhecê-lo e ele tinha uma vaga lembrança musical do jovem, era uma lembrança minimalista, daquelas coisas que ficam arquivadas na memória. O jovem falou de sua pagina (ou site?) recentemente criada e falou com tanto entusiasmo que contagiou o velho, que pediu o endereço: www.balaiobranco.com.br. Chegando a casa começou a interagir com o site (ou pagina?) e viu a sua solidão ser deixada de lado. Arrependeu-se de não dominar aquele que para ele, até então, servia apenas para trabalhos pessoais. Percebeu que era bom estar em contato não apenas com seu universo interior, mas além de colocar esse universo interior para fora, interagir com outras pessoas, uma interação além dos email’s. Como é bom conversar, com verdade, mudando a ótica do olho-no-olho. Apesar dos negros temas que a atualidade nos proporciona a vida passou a sorrir para o jovem-velho-ou-velho-jovem, pois ele viu a possibilidade de fazer aquilo que ele sabia e gostava, numa comunidade, resguardando para si a intimidade de seu quarto. Ele viu que mudanças eram viáveis e que para tanto bastava que ele enxergasse a alma do computador.
Quem pensou esta história? O narrador? O velho? Eu? O computador?... Dúvidas... Duvidas?

virtual realidade + real virtualidade = cybercultura
Roseane Comentário de Roseane em 1 agosto 2009 às 21:59
SAIDEIRA (Conto Minimalista em Tautograma privilegiando a letra “S”) (EC)


Saiu...
Sem sequer saber
Sentia-se só,
Seria solitária?
Sem sentido,
Sem sorriso,
Sem sumo, sem sal...


Súbita sensação,
Seria sempre superar sensibilidades?
Severidade, sisudez,
Sofreava-se.
Socorrer-se,
Salvar-se,
Sobre_viver!
Sobrevivia,
Sobreviveria?


Sobejavam sentimentos
Somavam sofrimentos,
Superar sangrento,
Sobrepor, soerguer,
Sonhando seguia,
Soergueria?



Soube ser sábado
Sarcástico simular...
Soterraria sua solitude,
Suavizaria sua sentença.
Segregaria suas sombras,
Sondando seus secretos...
Suprimiria sua solidão...
Suando, Supuraria...
Sovaria suas sobras...


Sorveu sequiosa,
Submergiu,
Subverteu,
Secou...
Sufocou sua sede,

Sozinha,
Sem saída,
Sem segredar sua severa solidão.

Sulcando-se,
Sangrou,
Sonhos soterrados...

Sombras,
Só...
Sucumbiu...


Sua saideira...



*****
Este texto faz parte do Exercício Criativo - A Saideira
Saiba mais, conheça os outros textos:
http://encantodasletras.50webs.com/saideira.htm
Roseane Comentário de Roseane em 8 maio 2009 às 14:14
Entre cinzas, negros, amarelos e lilás


Decidi revolver a terra dos vasos. Troquei o amor-perfeito, carecia de lugar mais amplo. É maior. Pus numa antiga cerâmica, qual um tacho de tons laranja amarelados que guardavam um grande arranjo de azuis que empoeirados, nunca morrem.
No pequeno alpendre da varanda bate vento, e um feixe de sol da à cor principal um amarelo mais dourado com nuances lilás em contorno. O tacho as flores e o batente azul desbotado, envelhecido do alpendre fazem tudo ser uma verdadeira pintura. Tal é a sensação mais crível quando é azul lá fora então há um fundo vivo com direito a algumas generosas porções de algodão.Infinita e radiosa beleza.

Ontem acordei febril e com tosse, tomei um chá e atei minha rede no meio da varanda era de lá que vivia a obra de arte que são os meus lindos amores- perfeitos. Aos poucos pesam os olhos e os cerro lentamente. Tomo-me em viagem e descanso.

Vejo dois distintos jardins um em cores outro em negras fagulhas, flores carbonizadas, fuligem, metros entre o preto e o cinza. Caminho meio as flores, muitos Girassóis que volteiam conforme ando como que coreografado, seguem-me em movimentos procuro então dele a saída e num repente as flores amarelas roubam-me o ar, sem gás empalideço, eles roubam-me o sangue. Quase desmaio, lívida olho em frente e uma pequena passagem me sorve daquele mal sentir.Sinto o aspirar recobrado, estou meio ao jardim dissipado. Caminho por entre cinzas, mas meus pés permanecem limpos e confortáveis. Um ar salutar não condiz com a falta de vida, viço. Mas é lá que respiro. Em quilômetros entre os frangalhos, indistintas flores destruídas, vejo um pequeno destaque em amarelos e lilás. Caminho até ele encontro ali meio as cinzas o meu tacho de amores-perfeitos, vivos, orvalhados em buliçosas cores, aroma doce destilando. Ao aproximar desapareço,ele e eu somos um, nos confundimos.Mas uma certeza, é ali que queremos ficar.

Quase as vinte acordo em suores, já estou bem, a febre se foi. Olho em volta, percebo ser noite, há um forte aroma imperturbável de flores no ar. Pareço que voltei, retornei não sei ao certo.Olho meus pés, e surpreendentemente estão sujos, completamente negros como que houvessem pisado carvão.
Sem muito entender olho em volta, esfrego os olhos, minha flor está lá. Mas bem abaixo de minha rede, como um presente, está deitado um lindo e vivo Girassol.

A terra queima, mas há uma flor no coração daqueles que crêem no partilhar, no preservar, quer sejam flores, frutos ou belos sentimentos, como o amar verdadeiramente.
Agora sim. Posso dormir desta vez envolta e aconchegada em muita paz, muitos tons de amarelos e lilás.
 

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Sagitariana (*)


Uma sagitariana
Tem ares de grande mulher
Teimosa, ousada
Atrevida...

Atrapalhada
Não se deixa vencer
Pelo cansaço
Não sabe ouvir não...

Vence as lágrimas
Que derrama por tudo
Com um riso no próximo minuto

E quando você pensa que ela
Está arrasada
Ressurge feito uma fênix
Perdidamente apaixonada
Pela vida

(*) Sirlei L. Passolongo
(**) peguei um poema da Sirlei, uma sagitariana, para homenagear estas belas mulheres sagitarianas

Dia 8 de dezembro de 1994, morria Tom Jobim


Triste é viver na solidão (*)

Águas de março (**)


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,

É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminhoresto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

(*) brinquedo com a música Triste é viver na solidão

(**)Tom fez "Águas de Março " no sítio da família em Poço Fundo, Rio de Janeiro, em março de 1972. A propriedade estava passando por uma pequena reforma, que consistia basicamente no reforço de um muro. Chovia muito, e a estradinha que levava ao sítio estava enlameada. Neste ambiente de obra, chuva, e lama, Tom escreveu a letra e a música. No folheto que acompanhou a primeira gravação da música, lançada em um encarte da revista "O Pasquim" em 1972, Tom diz que foi inspirado pelos versos iniciais de Olavo Bilac em "O Caçador de Esmeraldas":

"Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação
Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata
À frente dos peões filhos da rude mata

Fernão Dias Paes Leme entrou pelo sertão."

Dia 8 de dezembro de 1930, morria Florbela Espanca

Os versos que te fiz (*)(**)

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(*) poesia de Florbela Espanca, poeta portuguesa (8 de dezembro de 1894 + 8 de dezembro de 1930)
(**) A homenagem foi feita por Sandra Antoniolli pelos 79 anos morte da mais bela flor do Alentejo...


A imagem que ilustra foi retirada da Internet (desconheço o autor), e mostra a estátua de Florbela Espanca, no Parque dos Poetas, em Vila Viçosa (Alentejo), Portugal

QUERIA...



















QUERIA...


"Queria nem sempre significa passado
Talvez, o imperfeito estado
Em que não se sabe ao certo
Se já se ia, continua ou vai se querer...

Queria, quando se refere ao amor,
É mais um sinal de impotência do que de desejo
É o presente gritando ao passado
O rompimento de algo que não se rompeu.

O ia que se foi
Antes do depois
Que se esperou por vir....

Queria, em alguns casos,
Nem deveria se derivar de verbo
Pois é o estado patético
De não se verbalizar...

Queria é camuflar o querer.
Verbo que nessa hora,
Mais que imperfeito se torna,
Pois não tenho você..." (Rose Felliciano)



*Mantenha a autoria do Poema*

*Imagem utilizada no Poema- desconheço a autoria.


Rose Felliciano


PALHAÇO





Palhaço

Cara esbranquiçada
provoca medo e riso,
cambaleia sem saída
nos enormes sapatos.

Gargalha a freguesia.

Coloridos pingentes
caem dos floreados laços,
dá cambalhotas,
senta e levanta
em desmedida alegria.

Sem borrar a boca vermelha
- aberta de orelha a orelha -.

Cabeleira postiça,
não esconde a careca
só a vida secreta
cheia de provação.

É minúsculo o chapéu,
cruzes negras nos olhos
escondem lágrimas,
só precisa alegrar o povaréu.

Faz rir,
faz chorar,
desperta o sono da criança,
o sonho da infância...

Percebe indiferentes almas,
fareja tristeza,
a inutilidade da fantasia
não engana a doença.

Insistente faz estrepolias,
provoca gargalhadas
desvia, tropeça
bate palmas.
Leva um pontapé
toma bolachada
e cai na solitária coxia.

O show da vida recomeça.





Soninha Porto


 

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