Canção Sem Tempo Há muito que procuro a verdade
Invento frases e reencontro a fantasia
Respiro, reverbero e reinvento pensamentos
Desfaço o julgamento, o argumento e a palavra
Condeno e me condeno ao sentimento
De querer uma canção sem tempo
Algo entre a lembrança de um amor sem fim
E o futuro revelado em amargura
Livre como a rima que perdura pelas luas
De um caminho anunciado em poesia
Vereda que intenta flores, frutos e perfumes
Alhures - um destino traiçoeiro
Há muito que procuro a humanidade
E a leitura abstrata de seus modos
Seja no afeto de um pequeno movimento
Repleto de doçura e acolhimento
Seja na loucura do querer concreto
Lascivo, direto e apaixonado
Um trem sem freios que desabalado
Se vai determinado - incauto - vida afora
Passageiro peregrino do pecado
A revelia do presente e do passado
Há muito que procuro humanidade
No tempo, na pergunta e na resposta
by Marco Araujo

"porto alegre dos andares" foto:marco araujo
Verônica, o Céu e o Inferno Verônica surgiu do nada. Usava saias curtas, camisetas largas e aparentava 17 anos. Escondia o excesso de peso concentrado no abdômen ao tempo que valorizava os protuberantes e empinados seios. Era sobrinha de alguém que não conhecíamos e apareceu num começo de outono. Apareceu como uma flor que resistira o verão e teimava em enfrentar o inverno.
No repertório, uma infinidade de novidades que, para a época, eram premissa dos extravagantes. Dizia-se da capital e impressionava pela desenvoltura que falava de questões proibidas. Surpreendia-mos com seu conhecimento sobre a trilogia sexo, drogas e rock’roll. Discorria – displicente e longínqua – sobre aventuras em lugares mágicos, viagens extraordinárias que, amplificadas por nossa imaginação, tomavam proporções imensas.
Lembro de perder o sono com isso. Como seria eu na pele de um daqueles anti-heróis urbanos? O que faria diante de situações com traficantes sequiosos ou policiais sedentos ou famílias desesperadas? Como enfrentaria o olhar severo das imagens santas da capela do Sagrado Coração de Maria? Meu coração se dividia entre o gosto pelo desconhecido e a cultura que convivia.
Transitava com os personagens de Verne, Dumas, Twain e Victor Hugo, enfim, era comum sonhar-me combatendo bugres ao lado de I-Juca Pirama. Era Verônica, o céu e o inferno e, pela primeira vez, sentia-me tentado. Tanto que me apaixonei por ela. Inevitável.
Verônica não tinha horário nem hábitos; nem primas nem amigas. Surgia sem anúncios. Era como a tempestade; arrebatadora e magnífica. Mostrava-se a cada dia diferente; ora provocante por vezes distante. Nunca descartei a idéia de declarar-me, acho que todos os meus amigos pensaram nisso - faltava-nos coragem. Até poema escrevi pra ela - nunca mostrei, faziam parte de um mundo que só a nos dois pertencia. Sentia-me livre a seu lado, pouco falava. Bastava estar ali e beber e beber e beber o êxtase daquele canto.
Um dia, sem adeus, ela foi-se embora. Nunca esqueci, tampouco esperei sua volta.
by Marco Araujo

foto: Thiago Piccoli
O Ovo ou a Galinha “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
Oscar Wilde" A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Oscar Wilde, pensador e poeta irlandês do século XIX, declarava que a vida imita a arte muito mais que a arte imita a vida, todavia, parece a pergunta ter maior significado que qualquer resposta formulada. A vida, tanto por concepção como por desenvolvimento, é um processo criativo e, assim como a arte, tem sua origem na espiritualidade. Por isso, não seria errado deduzir que vida e arte se confundem e, como o ovo e a galinha, são farinha do mesmo saco.
Realidade ou ficção? Crença ou fantasia? O viver em sociedade presume, por parte do indivíduo, o desenvolvimento da sensibilidade em etapas pertinentes ao seu crescimento cronológico. Nos primórdios, o saber é construído a partir da trilogia mito, crença e tradição; o conhecimento adquirido pelas vivências daquele povo através de sua história, repassado de geração em geração. A essa realidade, incorpora-se a filosofia e depura-se pensamento e sensibilidade conduzindo o ser à expressão consciente de suas emoções. O intuitivo organizado e expressado na escrita, música, pintura e representação; o homem como imagem e semelhança de Deus ocupando seu lugar de timoneiro na existência, seja temporal ou espiritual.
Ser ou não ser? Luz ou escuridão? São questionamentos que não envelhecem considerando, até nossos dias, a trajetória percorrida pela humanidade e sua cultura. A imensa quantidade de teorias relacionadas à educação referenda, em pequena escala, correntes de pensamento pedagógico no sentido da inclusão e prática da comunicação da arte e ludicidade na formação integral do sujeito, seja aluno ou professor. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9.394/96 veio, teoricamente, permitir a implementação da arte no contexto da educação infantil, destacando sua necessidade nos conceitos sensíveis e culturais, admitindo sua importância sob o aspecto cognitivo, o que nunca antes havia sido considerado. Porém, por ainda vivermos um ensino mecanicista e direcionado aos resultados, são antagônicas as práticas recomendadas.
Cantar no coro? Fazer o solo? A prática artística é o exercício singular de uma técnica determinada para execução, expressão e contemplação individual ou coletiva. Sua aplicação na escola formal seria - a partir de um projeto ideologicamente definido - o desenvolvimento de didática específica para sua convivência, seja inter, multi ou transdisciplinar. Exercícios de respiração, relaxamento e percepção; oficinas de literatura, desenho e pintura; o folclore e suas conseqüências; a música e o teatro com seus respectivos desígnios; todas relacionadas e elaboradas ao universo cronológico correspondente. Ainda, a utilização dos recursos multimídia e a rotina estipulada para a assistência de espetáculos, visitação de museus e exposição de artes. Um elenco de atividades entre educando e educador que, através da troca de experiências e afeto, produza desenvolvimento crítico e estético e, por conseqüência, sujeitos comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa.
By Marco Araujo
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beijossssss
VAI UMA PROSA AÍ?
hoje somente hoje quero cantar a minha alma
na calmaria do meu hoje, minha alma chora vazia
sem por que, clama por alguém, por e estar sozinha
hoje nessa madrugada fria e sem coração passa lentamente
sinto-me enganada, desprotegida pelos abraços que ficaram inertes
sangro por dentro onde ninguém possa ver esse sangue quente escorrer
sinto falta de algo talvez de amar e ser realmente amada por igual
onde esta o amor? que caminho seguiu? com quem caminhou?
há se minhas estranhas pudessem me mostrar a saída dessa angustia
se os meus olhos cansados de segurar as lágrimas que teimam rolar
pelas minhas faces, deixar apenas sobressair as adrenalinas do amor
entrar na magia do momento de amar do somente amar
extirpar a dor, de ser enganada por uma falsa ilusão em meio
dessa escuridão febril dividir o que poderia ser meu com varias fantasias
variadas vestidas com vários tipos de tecidos imaginários de curta duração
onde o nada é muito pouco para que vire trapo esfarrapado trocado
a todo o momento. amores descartáveis depositados no monturo dos nossos corações,
ato do posti marylife
Joaquim Moncks
– para Marco Araújo, poeta, músico e compositor.
Viver é um risco, um desafio. E não há como querer mensurar o tempo de viver. Cada um tem o seu tempo. Nunca se sabe por quanto tempo vai bater o músculo.
Quando a saúde baqueia, todos os afetos em volta do vivente ficam de mãos postas, impotentes. Descobre-se, por vezes, um deus que se negava existência. Assim é.
Um mistério esta sensação de que o fio de linha entre o nascer e o morrer vai se romper.
Quando se recebe a notícia, o coração da gente bobeia, a cuca fica escangalhada, se tem vontade de fazer algo que se sabe longe de nosso alcance.
À hora das refeições, a fome se vai. A vontade é dormir pra não recordar do suplício das iminentes perdas.
Uma luzinha tremeluzente no fim do túnel nos sinaliza com a possibilidade de que o novelo de viver continuará dando linha. E mergulhamos na dimensão humana com o único escudo: a fé, sem desesperançar.
O sol vai nascer amanhã? Comemoremos. Sempre há algo a bebemorar, quando o brinde é à vida.
Somemo-nos aos desejos de bem-aventurança, enquanto os magos da medicina fazem o seu trabalho. O bisturi no aneurisma, no miocárdio, ou em qualquer órgão vital pode ser levado pela mão divina.
Sei que nada ocorre fora de hora. E logo me apercebo que o silêncio do homem pode ser crucial para o desfecho. Somos pequenos demais pra conversarmos com deus ou com a tinhosa que nos levará um dia. Mas a vida e a morte são faces da mesma moeda.
Viver nem sempre é solução para os livres. E matamo-nos de várias maneiras, sem piedade. O uso de drogas fortes é uma delas. Para os escravos é condenação. E sempre vai haver escravocratas de plantão. Só a Liberdade justifica a vida.
Por ora, enquanto o amigo está na sala de operações, baqueando, é orar ou não. A liberdade é dual. Fico entre o confrangimento e a perda da fé. O recurso é o choro. E não baquear no essencial.
Amanhã, o sol vai luzir forte implantado no coração. E comporei um poema de aleluia. Sem brilho estético, apenas haurindo o respirar da esperança. Enfim, música!
– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2008/2009.
http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/1713476
Seja muito bem vindo!
Abraço,
Jaqueline
Beijos
Penso dispensável qualquer humilde e leigo comentário meu em suas produções, pois são todas encantadoras, repletas de sentimento amoroso.
Beijos, Deus o abençoe.
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